1. My reflection, in everything I do

     

  2. Ainda que eu não te veja mais.

    Estou aqui faz um tempo, decidi então ser muito mais imagem do que palavras. Vim tentar a vida, ser curioso e estrangeiro do meu próprio eu. E nesse tempo todo, por diversos caminhos e desenvolvimentos, cheguei sempre à um único fim: sou contradição. Porque por mais que eu diga que goste de cinza, dos diálogos de poucas prolixidades e de arroz branco, eu acabo implorando por mais cor, mais tom e mais atenção. Um pouco mais, aliás. E ainda que eu não te veja mais, você vai sempre saber que eu desajeito meu cabelo porque quero, que não confio em antiderrapantes e que eu gosto mesmo é de falar. Falo, falo e acabo não falando o que eu precisava. Ainda que eu não te veja mais, você vai sempre me ler com olhos fechados e no fim vai puxar a minha bochecha, não porque me acha fofo, mas porque em algum momento do mundo, pensou que eu teria potencial de ser melhor. E eu vou guardar a pouca bagagem de cada pedrinha de encontro, porque o que eu sei mesmo é acumular. Por pressa, egoísmo ou por pureza. Acumulo tudo isso dentro de mim, que acaba sempre explodindo e virando pó. E voa. Porque mesmo depois de tudo, quem fica sou eu. O mesmo eu. O eu que não sabe o que quer. Que quer tudo, mas que no fundo não quer é nada. E nada mesmo. E ainda que eu não te veja mais, tenha a certeza de que eu não vou estar correndo atrás das borboletas. Eu quero mesmo é achar mais uma parte de mim. E correr da fumaça dos cigarros e dos olhares que me inibem. Porque ainda que eu não te encontre mais, você é querido. “Inho” de querido. 

     

  3. Há vestígios de um novo verão. Crescer interiormente é algo engraçado, dói mais que o físico e muito menos que o bem que faz.

     


  4. Querida Julieta Capuleto…

    Querida porque embora não habitemos tempos e mundos iguais, a senhorita eternizou algo que pouco se vê e muito se precisa. Querida porque consegue ser viva até em mentes tão humanas e racionais. Querida pois consegue nos fazer sentir o que não vemos. Aliás, pode me dizer o que fizeram do amor?

    Dessa vez, não é uma carta comum. É que eu ainda não o encotrei. Cheguei até aqui sem conseguir levar a diante qualquer um daqueles encontros em cafés, cinemas ou bilhetes de “para sempre”. Hoje te escrevo porque penso que ainda é cedo e eu acredito que uma hora ele chega pra mim. Não posso mais viver de começo que sempre chega no final. Sou um amontoado de histórias que não foram, porque sempre o pouco que me dão é tão pouco que vira nada. Não aguento mais começar. Queria tanto continuar. Ainda não sei se posso fazer isso, mas queria continuar. Alguma coisa deu errado em mim? Não sei explicar e não sei como arrumar. Nem sei se tem ajuda pra isso. Mas eu queria continuar.

    A minha vida passou a vestir uma armadura e não deixar ninguém ficar por muito tempo. Justo eu, que acredito tanto. Porque eu acredito. Eu só não aguento mais os fins chegando e me provando que amor, amor mesmo, desses capazes de marcar histórias, é pra quem sabe ter. Ela, a vida, me emociona o tempo todo, mas se eu ficar chorando, quem vai pagar minhas contas e quem vai querer amor cheio de olheiras? Então eu corro. Sempre me dá essa vontade de ir embora quando descubro que isso que me dão não se parece nada com o que eu deveria receber e dar e enfim ficar. Eu estou sempre indo embora pra tentar chegar em algum lugar que eu ainda não sei onde fica mas que quando for, vai ser um bom abrigo pra quem tanto fugiu. Parece triste. Eu podia desacreditar, eu já podia ter desistido. Mas eu ainda acredito. Porque embora pareça desanimador, olhando com carinho fica até bonito.

    E talvez seja essa mesma a essência dos teus sentimentos por Romeu. Talvez seja isso que ajude olhares verdadeiros seguirem o mesmo foco. Ou então mãos conquistarem bens comuns. Passos de dois. Caminhos cúmplices. Presentes sem porquês e jantares a luz de velas. Talvez. Comigo ainda não foi. Mas ainda será. Algo tão intenso e grandioso só acontece quando é acreditado. Embora eu queira saber onde está e toda essa minha ansiedade me deixe aflito, eu acredito. Acredito no grande, no bonito e no essencial. No singelo e no mais puro. Eu acredito no amor.

    (Verona, 31 de Março de 2013)

     

  5. You can see that your home’s inside of you

     

  6. Como é capaz de ser tão puro assim? Por que seria inimaginável te encontrar no fim de mãos dadas se tudo está assim, tão puro?

     

  7. Tenho tido dias bons. Não é porque estou geograficamente longe da sua vida que eu não me importo. Eu gostaria de saber se você tem se alimentado bem, se comportado nas reuniões dos negócios e se ainda se lembra de mim quando compra aquele menu combinado. Aqui chove, faz frio, até neva, mas tenho ficado sob bons tons de céu azul. E ainda penso em te encontrar.

     

  8. Eu não posso mais acreditar no nós?

     

  9. No sofá da sala de espera as pessoas discutem sobre nós. Há quem acredite que somos feitos de papel machê ou alguma outra massa densa. A outra pergunta se somos filhos da mesma mãe. E enquanto a tinta alaranjada que está no seu cabelo faz efeito, nós vamos nos afastando deles.  Que o mundo não deixe. Não deixe que sentemos diante de papéis em branco para traçar rotas, já que vivemos de inconstância e quando eu estou com você é isso que me faz flutuar. Não deixe que nos sinta obrigados a raciocinar sobre a cura da dor do próprio mundo, uma vez que somos alma um do outro em fotografias do século passado e isso, apesar de leve, é fardo. Mas que também não deixe de acreditar que juntos nos tornemos responsáveis por declarar as mudanças que queremos ver no céu de monotonia do que não nos faça cheios de inspiração.  Nós estamos doentes e somos sãos. Nós estamos aborrecidos e somos completos. Mas que dor é essa? Que dor é essa que mostra que você só pode ser mais forte que o entusiasmo de quem arruma a fuga pra não te assumir? Que dor é essa que te faz desistir, mesmo sabendo que é nesse momento que sua estrela brilha e nos abraçamos forte pra estabelecer o que é amor? Eu quero te proteger. Segura na minha mão de longe que eu gosto de imitar o jeito que você anda e do ruivo do seu cabelo.

     

  10. “Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente.
    Se ela te fosse direta, você a rejeitaria.” Sentimental, LH.

     

  11. Qualquer canto de luz, qualquer pedaço de estabilidade, qualquer interior concreto.

     

  12. Cascais, Verão de 2012.

     


  13. Eu já carregava motivos

    Me dei com você se atrasando por uns longos três minutos no encontro para o primeiro café, fato considerável na terra dos pontuais e diretos. Pois é. Mas acabou me apresentando o melhor lugar com cara e nome de Miradouro da cidade onde rolava um papo bacana na luz verde do seu telefone e uma briga consigo mesmo enquanto se entendia com a fumaça do cigarro, uma vez que você havia resolvido ser o que sobrou de gentileza no mundo e me colocar longe da situação gerada pela queima de nicotina que ocorria entre os seus dedos. E eu criava motivos, porque essa seria a primeira vez que eu me deparava com alguém assim tão grande. E mais tarde, não cansado de me apresentar o que sabia de cidade, me fez sentar no café de todos os dias, que fica ao lado de onde você trabalha e não muito perto de onde eu faria o meu xixi da água que eu optei por tomar ali, já que mais uma vez eu não seguia um de seus costumes. Normal pra quem não vem de um lugar com invernos rigorosos e que nunca esteve fora da crise. E mais perto da noite, você me colocava para ouvir as músicas típicas da sua tradição e me contextualizava sobre cada uma delas. Mas eu inventei um motivo pra não ser tão importante pra você e corri. Foi no segundo café regado a muita política de esquerda e da discussão que se dá a análise genética da espécie de aves encontrada na Ilha da Madeira que eu decidi correr mais ainda. E o meu olhar, que já não saía do espaço de escuro que existia debaixo da mesa que nos definia naquele espaço, me dizia “corre mais”. Corre mais porque entre olhar pro buraco de nada e pros olhos claros me postos ali bem descompromissados, eu ficava com o buraco. Correr daquilo que podia ser tão bom seria a minha válvula de escape. A condição de mais uma vez escapar de um desafio e aceitar toda a minha insegurança novamente. Quem você pensa que é pra me dizer o que os reis faziam ou deixaram de fazer quando não haviam carros? Quem era você tentando me convencer do que não se faz em tempos de frio? A cada cigarro que você ascendia era menos um minuto de atenção que eu ganhava e eu já estava sem lugar na mesa e na sua vida. E a sua cena de voltar correndo pro lado do cais que eu estava esperando o trem na hora de ir embora não conseguia me convencer, afinal a única forma de não corrermos um do outro é quando o acaso me dá cinco minutos a mais de espera pra ir para a casa e só. Depois disso, cada um inventa um motivo e corre. Corre pra evitar a sua noite de embriaguez no meio da rua toda e comigo. Corre pra evitar você implorando que eu me divirta e dance e ache normal toda essa sua mania de dançar junto e fixar o olhar enquanto eu desvio a atenção pro lado que é nada interessante, mas pelo menos não é tão grande e não vai embora. Corre pra não admitir toda a nossa incapacidade de estar junto, simplesmente por não ser capaz de estar. Porque não importa o quão grande você é, se não é pra mim.

     


  14. Espinafre

    Aprendi a gostar de espinafre. Desde que eu cheguei no continente do primeiro mundo tenho me despertado por gostos indelicados e idiomas originados do latin. Parece que foi ontem a minha consagração: conquistei por mérito e enfrentei por coragem.  Mas quando eu falo com minha mãe é que eu vejo que nada é tão fácil sem os conselhos lá de casa. Já trombei com muitas pessoas e com as sombras delas também. Hoje eu queria voltar pra casa. Só hoje e eu prometo que retorno à minha missão. Mas é que hoje esporadicamente eu queria um colo que não fosse esse meu. Esse meu de solidão.

     

  15. 05.09.12 | Lisboa, Portugal