De novo
O meu problema não é com você. Nós não nos encontramos numa boa época, porque apesar de eu saber que poderíamos dar certo eu também sabia que eu não tava nem aí praquilo tudo que podia virar. De novo, eu. Eu penso demais, as únicas vezes que eu quase não pensei foram as únicas que me levaram a alguma sombra de acerto. De novo, eu. Com respostas certeiras, porém impensadas. De novo, eu. Portando de toda a rispidez do mundo pra provar que ando armado. De novo, eu. Não arriscando dormir na sua casa, afinal “pra que mentir pros meus pais?”. De novo, eu. De novo, eu. Sem tentar, ou tentando na hora da morte. Deve ser mais fácil não esperar. Porque de tanto esperar, a gente acaba desacreditado. Deve ser mais fácil não gostar. Porque quando se tem o problema de não saber dosar pra mais ou pra menos, acontece de a gente se sufocar. Deve ser mais fácil não querer continuar. Ou então querer e insistir. Eu to cansado de ficar “responde, responde” quando eu não perguntei nada. O problema não pode ser tão grave. Preciso parar… Não dá pra ser assim! Hoje é mais uma oportunidade perdida, mas uma história por começar. Se sorvete de creme não me apetece, não compro mais.
Embora nunca entenderá
Lembra das nossas promessas para o ano de 2012? Ele chegou. Ele vai correr e vai morrer. É isso que tem acontecido ultimamente. Além disso, eu já me coloquei a par das perspectivas do possível apocalipse e não sei se ainda quero confiar nos Maias. Você provavelmente vai confiar, porque pelo visto continua sendo um daqueles que acham que a manga do vizinho está pra cair na sua cabeça e que fatalmente tenha sofrido bullying na pré-escola. Você ainda continua aquele dos castelos encantados e das pessoas de uma vida inteira de cinco meses. Você continua aquele que fará de conta que não percebeu as minhas ligações e que corre pras montanhas quando eu ligo da cidade vizinha para que sua antena não funcione. Mas e as últimas memórias? Por que ainda as guarda? Nessa história toda, há alguém do lado de cá que ainda vai ser o que mais sente por tudo isso. Sentir nesse caso é deplorável. Sentir e só. Sentir sofrimento. Sofrer sentimentos, memórias e poréns.
Eu aposto que todos os meus amigos não apoiarão esta ideia de eu te querer colocar a par de tudo que eu senti e pouco falei. Eu reconheço as razões deles e teria a mesma atitude se a situação fosse contrária. Mas a verdade é que eu preciso me desprender disso. E guardar pra mim tudo isso parecer pesar. Aí sim seria falta de amor próprio. Porque enquanto eu estou querendo tomar um jeito nos meus estudos, isso pesa. Enquanto eu estou com outros “amores”, isso uma hora ou outra pesa. E por mais que eu tenha acreditado que sabia lidar com tudo isso, eu chego à conclusão que eu não sei. Nunca soube.
Nós sempre estivemos distantes. Desde o início. E você pode ter sido, em muitos momentos, uma idealização. E eu um amigo talvez. No entanto, daqui não era assim. E hoje não poder ver você passando por mim em um shopping ou outro, me faz ficar com o pensamento vago. Não poder ver se e como olharia nos meus olhos, ao contrário de me ajudar a pensar que você não existe, me mostra tristes pendências. Por isso acho mais honesto te colocar a par. Acho honesto que saiba o que foi e que agora sim… Agora sim não vai ter terminado em um abraço frio com uma promessa mentirosa de que nós nos veríamos mais uma vez. Eu não sei como aguentei. E se eu demorei, foi pra não agir por impulso. Agora, acho honesto que você saiba também que, mesmo que tenha sido essa a impressão que ficou em mim, você não foi decepção. A gente não pode rotular quem apenas não conseguiu retribuir os sentimentos da gente.
Não sei lidar
Parece que quanto mais o tempo passa, mais diminuem a quantidade de fritas e economizam no cheddar. Eu enxergo o fim, mas não sei fazer um começo. Eu falo com certeza, mas tremo as mãos. Há poucos dias ainda era 2011 nos cabeçalhos e eu vivia o ano mais desengonçado da minha vida. Em meio a contratempos e rebeliões, eu passei a descobrir de verdade no ano passado a tal da intolerância e, através dela, a certeza de que certas situações podem ser simplesmente insuportáveis e que há sentimentos que machucam pra sempre.
A minha reação foi, sobretudo inesperada. Pouco daquilo foi o bastante pra que muita coisa desmoronasse dentro de mim. Mas isso é coisa minha e você nunca quis saber. E de verdade? Eu queria passar uma borracha nisso tudo e destruir os grandes personagens que rondam as minhas pequenas e falhas histórias. O que é ser errado? Eu tenho fama de querer abraçar o mundo quando tento me colocar no lugar de alguém querido e o meu humor é tão peculiar que nem afasto as pessoas. O que normalmente acontece é que simplesmente acaba que não tenho muita oportunidade de me aproximar delas. Isso é o que tende a ser o bocado mais difícil disso tudo.
Ser apenas gentil não deve lá ser tão certo assim. Os mais receptivos que eu conheci até hoje já me deram uma espécie de boa noite Cinderela, dormiram com os sete anões, e depois esconderam a capa da bruxa pra pedirem desculpas e pagar de arrependidos. Pode ser mais uma das minhas paranóias e pertencer à categoria das coisas que têm me implicado ultimamente, mas ser de mentira assim eu não consigo.
Esses dias eu parei pra pensar qual foi a última vez que eu marquei um cinema de olho na pipoca, não me importei com a classificação do filme e nem com o valor do bilhete. E isso deve fazer um bom tempo. Porque também, é do meu reconhecimento que eu não sou tão fácil de lidar assim. Meu “bom dia” soa estúpido, o meu “como vai” é nada entusiasmado e o meu “tchau” tem um poder inigualável de parecer com um “até nunca mais”.
De qualquer maneira, eu não sei lidar. Não sei como proceder naquelas dinâmicas de fim de ano, minha sinceridade é sempre áspera e meu perfeccionismo irrita as pessoas. E eu ainda vou querer saber porque comigo é tudo sempre tão traiçoeiro e porque eu nunca aprendo. Mas de qualquer maneira também, eu já sei que não saber lidar acaba sendo a minha característica mais forte.
Nós não somos
Nós não somos. Não somos nada um do outro e isso não é novidade pra nenhum dos dois. Mas você já me contou uma ou duas frustrações que passavam por sua vida e eu senti vontade de te acalmar. Fico feliz que não tenha comentado dos meus erros de português e nem dos meus tropeços na fala. Sabia que eu já experimentei cigarro? Aos dez anos de idade eu achava que tinha poder sobre o mundo e já que o meu ciclo de amizades era composto por pessoas mais velhas, mesmo tendo apenas um representante físico, eu não precisaria dar atenção pros pirralhos da minha classe. Eu experimentava sem saber tragar, obviamente. Nem andar de bicicleta eu sabia. E eu já frequentei um consultório de psicologia. A moça me colocava pra desenhar e explicar os meus traços. “Isso é um sol, não tem como eu explicar que é outra coisa”… E eu nunca consegui tirar da minha cabeça aquela imagem de pirralhos que usam camiseta desbotada e de gola frouxa que os meus colegas de classe tinham. E eu adorava o dia que eu deixava a lancheira em casa, essa que não era de personagens da Disney, e ia pra fila do bar comprar meu próprio lanche. 1 real dava pra comprar o salgado, o refrigerante e ainda receber troco em balas. Você me disse que gosta de pizza, mesmo sem expressar essa frase. Você tenta me provar que é diferente das outras pessoas da sua idade, mesmo assumindo que não gosta de meias aparentes. Nós não somos nada um do outro e isso não é novidade. Mas eu senti vontade de dizer que vejo algum propósito em te acalmar.
Primeira vez, segunda vez e ponto.
Quem me conhecia, te conhecia também. Foram naquelas ocasiões meio sem assunto e que mesmo assim me davam vontade de contar uma história longa pra prender a atenção do alguém com medo de que, assim como você, ele também fosse embora. Mas a história tinha fim antes mesmo de eu começar. O pior de tudo é que os fins infinitos são severamente os mais tortuosos, e ninguém se dava conta disso. “Olha que bonito! Até aí eu vejo uma linda história! Se permita!” e muitas outras tortas de banana eu escutava. Mas sendo assim, eu abraçava a causa com sintomas de quem não queria passar por check-ups patológicos. E se encontros perfeitos não existiam, você viria pra provar o contrário e oferecer o algodão que era doce e multicolorido. Primeira vez, griletto… Quero dizer, perfeito. Segunda mágica vez e pronto! Anjinho da guarda existe e despertou sinal de alerta. Quer saber? Porra nenhuma de distância foi problema pra nós! O problema sempre foi o nós que pouco existia e mesmo assim surtia efeitos do lado de cá. Você não foi o primeiro e nem o último, mas nem eu mesmo me dava conta disso. Os que logo vinham depois de suas aparições eram sempre chatos, carinhosos e bons partidos também. Mas eu decidia deixá-los ir, não porque eu não queria que ficassem, mas por respeito. Já os outros vão porque querem. E problema deles! Mas dessa vez foi diferente. O erro não foi meu. Dessa vez eu não me preocupei com o “ir bem vestido”, o “ter um bom papo” e com aquela filosofia da capa do Batman. Dessa vez, eu esperava você machucar. E eu vi isso de dentro, que doía muito mais do que o que eu via de perto. Cidade fria, vias longas, lago de monstros. Foram as cenas mais assustadoras da minha vida. Eu não implorei para estar ali. Porque ali se chamava fim e eu nunca tinha aprendido a lição de perder. Dessa vez, esporadicamente, seria a vez. A vez que meu conto era calar, meu sorriso era voltar e a minha tristeza foi ter ido. Ir nunca me passou medo, dessa vez eu não pude ficar. O fim foi real e eu te agradeço muito por isso.
“O que você está esperando?”
Quando te perguntaram o que você estava esperando, eu fiquei com essa pergunta na minha cabeça. O que a gente espera? O que a gente quer? Eu não sei o que é que realmente faz a gente ficar lutando pra ser alcançado no final ou se isso é tudo mesmo só fantasia, como de costume, da nossa cabeça. Parece que a gente tá sempre esperando o perfeito. É o par ideal, a casa de projeto ideal e os temperos na medida certa. Será que nunca um pouco pra mais ou um pouco pra menos? Eu já cansei de brigar comigo por causa desse perfeccionismo tolo que parece fundir com todas essas sensações que eu to deixando de sentir. Eu já passei da fase de criar borboletas na barriga ao lado de um encontro que poderia ser o famoso ideal, e de ficar na expectativa da ligação que então poderia ser ideal também. Mas acontece que se não for tudo junto, parece não bastar. Acontece que se não for o mundo do jeito que a gente quer, a gente não vive por completo. O que foi feito então das nossas mancadas, dos nossos deslizes e do que nos fez chegar tão maduros até aqui? Parece que perdemos o que mais tínhamos em excesso: a tal da fantasia. Ou é fantasia demais que nos faz ser tão incompletos ou supercompletos assim? A impressão que fica é a de sermos sempre tão extremos, de decisões sempre tão decisivas, de conclusões sempre tão bem pontuadas. Até meus medos são extremos e profundos e marcantes e, por fim, torturantes. E quando você me diz que tem passado por quinhões desastrosos, eu fico tentando arrumar uma maneira de solucionar o que me solucionaria também então. Nós somos feitos do que o outro tem. Nós nos acostumamos ser assim. E devemos parar de querer o tudo. O tudo ideal. O tudo lindo. O tudo que é excesso, e aí volto a falar do nosso pior defeito e da nossa melhor qualidade. Porque somos intensos e intensos de verdade. É de verdade tudo isso que a gente vive. E a gente não faz tudo errado, a gente não sufoca, e não fode tudo que está nas nossas mãos. A gente só espera demais e não sabe o que espera realmente. Essa noite, já era tarde quando eu cheguei de uma dessas danceterias sujas daqui e depois comprei o sanduiche pra comer em casa antes de ir dormir. Foi assim que eu descobri que 4 horas da manhã é um dos horários mais favoráveis pra colocar as idéias no lugar e decidir o que realmente a gente espera. E pra variar: eu não cheguei à definição alguma. Boa viagem, e deixa que o destino vai mostrando o que a gente tem que passar e aonde iremos chegar. Esperar pra que, mesmo?
Estudo preliminar
Não era tão imprevisível assim e eu sabia que você ia voltar. Sabia porque sempre é assim. Triste é só pensar que agora você virou a pessoa das circunstâncias de próprio favorecimento. Aliás, não só. Começa a ser triste logo quando envolve sentimento. E só basta a gente gostar pra que qualquer migalha, ao contrário de ser melhor do que nada, já constituir o nó que fica na garganta. Você é quem não responde a mensagem de aniversário, mas que vem quando o frio aperta. Você é quem não esclarece o que sente, mas que declara amor quando ele já tá sufocando. É quem não justifica, mas se enforca. E eu sou o cansado desse vai-e-vem e dessa raposa em pele de saudade. A gente já não cumpre o tratado faz tempo e você vem dizer em poucas palavras que finge que está tudo normal. Não tem nada de normal aqui. Tá ficando previsível e coisas previsíveis são tão apáticas como tudo aquilo que eu dispensei. Tá na hora de parar! Parar de brincar de ter ciúme e de aceitar que todo mundo nota, mas que ninguém tem peito de assumir. No fim das contas, ou alguém decide destruir o mito ou o amor próprio engana o resto. Porque de acordo com os estudos de casos e pesquisas de campo, o meu problema não é tão fácil de resolver. Virar vegetariano vegan, decorar marcas de carro, estar em paz com o seno e o cosseno e aprender a subir em árvores. Mas não! Não pro método da tabelinha, não pras ações previsíveis, não pro 1 real a mais e aumenta a batata e o refrigerante. Chega uma hora que você tem que assumir um partido e, mesmo que recalcado, o partido deve ser o seu. Porque muita coisa se reconstitui. O crime envolvendo a menina Nardoni, a orelha rasgada e as nojentas lagartixas. O que não dá pra reconstituir é aquela velha imagem que eu tinha. Você também cansou do estado intacto.
Dove mudou
Dove mudou. Mudou antes mesmo de o horário de verão acabar. Dove mudou. E foi enquanto eu ouvia os mesmos choros de um final de semana mal sucedido. Mudou enquanto você estacionava o carro. Ou na hora em que atropelou dois pombos na cidade grande. Dove mudou. Mas as frases de efeito eram as mesmas. E as promessas também. Dove mudou enquanto você escolhia o mesmo presente para me agradar, mesmo sabendo que se eu não comentei tanto, eu realmente não havia entendido a função. Dove mudou. Mudou na mesma hora que a Sadia resolveu jogar na cara a situação de quem não tem alguém pra dividir uma lasanha no final de semana, quando criou a de porção individual. E Dove mudou. Mudou enquanto você perdia o tempo em achar a minha foto para colocar na agenda do telefone a fim de que ela aparecesse quando eu ligasse. Mas Dove mudou. Mudou e eu nem te liguei. Dove mudou. Mudou na mesma intensidade em que protagonistas querem atuar no lugar dos figurantes pra não ter texto pra decorar. É. Dove mudou. Mudou enquanto lançava o celular de quatro chips, duas entradas USB e com ferro de passar roupa. E mudou enquanto presidentes são feitos de histórias comoventes e nem sempre convincentes. Dove mudou enquanto o Ace não era mais branco e ninguém mais confiava no poder do rosa. Dove mudou enquanto você não podia mais dizer o quanto queria pagar nas Casas Bahia e nem o que achou da nova escova de dentes com full HD. Dove mudou, e mudou sem apatias. Dove mudou. E foi bem na hora em que o Fenômeno já não fazia gols e a Xuxa não era só para baixinhos. Dove mudou. Sem pensar nas conseqüências dos desatentos que poderiam não perceber que pagariam mais por menos. Dove mudou. Mudou enquanto você dizia não querer ter vivido e enquanto especulava o quanto tinha sofrido. Dove mudou. Mudou junto com a velha vizinha Neusa que entrou num consórcio e preferiu não pagar mais aluguel das casas centrais. Dove mudou. Mudou da mesma forma que a gente prega um botão no paletó de usar na noite de hoje. Dove mudou. Mudou na mesma certeza de que o maior investimento de um dia de cão é adquirir um frango assado. Dove mudou. Mudou depois que AS não era mais gostoso e que ninguém mais temia o ardido do Merthiolate. Dove mudou quando já não víamos mais heróis participando de BBBs e os discursos do Bial já estavam saturados de citar o Bandeira, o Saramago e ele decidiu então falar de Lady Gaga. Dove mudou. Mudou na época que funk é kama sutra, bermuda é cueca boxer e peitos de silicone não dão tesão. Dove mudou. Mudou com a patifaria governamental do Egito e o aumento no preço das excursões pro Hot Park. Dove mudou. Mudou na terra de quem tem que, obrigatoriamente, pagar pra ver e de espelhos em formato de ilusão de ótica. Dove mudou. Mudou assim como coxinha de frango com catupiry mudou pra coxinha de caldo Knor com molho de Maizena. E Dove mudou. Dove mudou a embalagem. Dove, assim como quase todas aquelas coisas que um dia eu te contei mudaram. O pior é que Dove ainda tem o poder de estraçalhar com os seus cabelos pra te fazer consumidor. Pra muita coisa, nem borracha e nem errorex. Tempo muito menos! Pros cabelos ressecados: Dove – Reconstrução Completa!